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 Reclamações das Crianças Minimizar

(Em cada Zanga Mora um Abraço)

NÃO HÁ QUEM OS ATURE! (As birras e as manias dos crescidos)

  • A minha Mãe tem uma mania! Às vezes, manda-me para o quarto de castigo e ela fica do lado de fora.
    • Minha cara Diana: já viste como seria se, de cada vez que são injustos, os pais pudessem ir para o castigo? Achas que eles percebiam que os castigos são um vulcão de raiva que explode devagarinho? E será que descobriam que, entre estarem de "cabeça perdida" (cheios de "efeitos especiais") e magoarem, magoa mais um castigo, porque faz com que as crianças lidem com um lado frio dos pais que as faz sentirem-se minúsculas e vulneráveis?
  • Eles podem contar, é tudo o que querem de nós, a quem querem. Mesmo à nossa frente. Nós, se dissermos alguma coisa, é logo castigo.
    • ... Mas não deviam poder, Manuela! Porque a privacidade de uma criança e o seu bom-nome não devem ser tratados sem cuidado, sobretudo pelos pais. Porque é que é difícil que eles entendam que algumas das "macaquices" das crianças as envergonham ou humilham?
  • E porque é que os adultos podem comer chocolate quando querem, e nós não? Porque é que temos de pedir?
    • Pois é Renata ... Porque (muitas vezes) as regras, numa família, quando nascem, não são só para todos ... São só para os filhos ...
  • Estão sempre a interromper-nos. Deitam-se no sofá e não temos espaço. Eu quero ser uma adulta normal!...
    • Todos querem, Cláudia. Mas, depois, as pessoas crescidas habituam-se tanto à pele que vestem que nem dão conta da distância entre aquilo que exigem a uma criança e aquilo que elas próprias acham exigível fazer-se ...
  • O que me aborrece nos adultos é quando eles falam muito alto, como se eu estivesse lá ao longe ...
    • Sabes, Mafalda, os adultos, quando gritam, metem medo ao medo. No fundo, não esperam ser ouvidos por aquilo que tenham de importante para dizer. Com se sentem muito assustados com isso, assustam. Não sei se te lembra alguém, mas é aquela velha mania que os leva a achar que a melhor defesa é o ataque...
  • Não gosto que refilem comigo. Eu digo que não fui eu, mas a minha mãe não desiste!...
    • Talvez porque ela saiba que, às vezes há um Manel um bocadinho batoteiro que toma conta de ti ... Não que tu queiras! Mas também não te partes quando ela é um bocadinho injusta ... Ou partes? ... Eu cá imagino que, depois de ela refilar, nalgumas vezes, lhe dás a volta e sais a ganhar ... Os pais são um "coração de manteiga". Tu sabes!...
  • Os adultos pensam que as crianças não são responsáveis pelas coisas que sabem que têm de fazer.
    • E, se queres saber, Vicente, até não pensam mal. Porque isto de ser só pequenino para o que interessa também é um bocadinho habilidoso, meu amigo!...
  • Também acho que os adultos deviam brincar mais com as crianças e não estarem sempre a pedir para nós não brincarmos tanto.
    • Sabes que eu acho que os adultos - lá no fundinho deles - também acham o mesmo? Mas a maioria dos adultos anda tão por baixo que tem medo até de imaginar que os pais são o melhor brinquedo das crianças.
  • Às vezes, as professoras falam muito alto para mandarem os meninos ficarem calados.
    • Se é só às vezes, até não estamos mal, meu caro Raúl! Mas quando gritam a torto e a direito ... é batotice!
  • Às vezes, os meus pais zangam-se comigo sem razão e eu zango-me com eles com razão.
    • Pedro, Pedro, Pedro ... Não me vais dizer que nunca te zangaste sem querer!... E, depois, se educares os teus pais um bocadinho, qual é o mal? ...
  • Então fico irritado e faço tudo ao contrário.
    • E quando ficas ... hiper-zangado?.. Não te irrita ainda mais que fiques "burro" e se apaguem da tua cabeça todas as coisas que estás fartinho de saber? Será que os teus pais sabem que isso se passa dentro de ti ( ... e dentro deles)?

QUANDO SE ARMAM EM GRANDES E ESTRAGAM TUDO (Quem disse que uns sapatos mais altos ou a gravata "às três pancadas" disfarçam toda a criancice que lá mora ...)

  • Adultos são os que usam sapatos grandes.
    • Tirando os sapatos, Alice, também não acho que haja assim tantas coisas que distingam os adultos das crianças. Não são - uns e outros - enfadonhos, de vez em quando? Não têm todos birras e manias? E não dão quase tudo por mimos e meiguices?
  • Um adulto é uma pessoa que trabalha para comprar um carro todo equipado. De resto, é uma pessoa igual às outras.
    • Se for assim, Luis, um adulto arrisca-se a ser um triste ... de alta cilindrada ...
  • Um adulto é alto, um bocado chato e, às vezes, bom.
    • Também , para que é que querias adultos perfeitos ao pé de ti, João? Para achares que, por mais que crescesses, nunca havias de ser melhor que eles?
  • O meu pai não me deixa ir casa da minha avó quando eu estava com saudades dela. Até parece que ele nunca teve saudades ..
    • Os adultos que tem muitas saudades das crianças que não foram têm o coração abotoado até ao último botão ... Mas, minha cara Carla, porque é que não dás um jeitinho no coração do teu pai?
  • Eu acho que os adultos, às vezes, vivem muito separados uns dos outros.
    • E achas bem! Eu acho que eles acham o mesmo ... Mas, depois de se separarem um bocadinho, os adultos vivem divididos entre o medo de serem abandonados, se se separam demais, e o receio de ficarem sem ar, se se confiam a alguém... Já viste como os adultos são muito mais complicados do que parecem? ...
  • Não gostam quando se armam em grandes. Eu acho que eles não são grande coisa.
    • Estás tão zangada com eles, Marta! Imagino que se tenham armado em grandes, vezes demais, ao pé de ti!
  • Às vezes, os homens andam aos murros ... e depois ralham, quando os meninos andam a brincar às lutas.
    • Mas - sabes, Rui?!... - ainda quando trocam murros, vá que não vá ... Mas quando dão palmadas de "luva branca" e são desleais uns para os outros é que os adultos não são, nada mesmo, para brincadeiras...
  •  Acho que os adultos ouvem pouco as crianças.
    • Pois ouvem, Bernardo! Os adultos baralham ouvir com escutar ... Eles são capazes de ouvir com o coração (escutar portanto). Mas como andam sempre muito magoados por não terem ninguém que os escute (como eles queriam), em vez de escutarem os outros, ouvem-se a eles. O resultado tu já sabes qual é ...
  • Não gosto que me digam que sou feio.
    • Eu acho bem que não gostes! Agora fazes o favor, não te ponhas à espera que os teus pais façam de Harry Potter. Põe-nos na linha!
  • Não gosto que o meu pai esteja sempre no meu quarto. Ele desarruma-me tudo. Vai brincar e não arruma nada.
    • Primeiro: tu não gostas que ele mexa nos teus brinquedos como se eles fossem de todos ... E estás coberto de razão! Segundo: tu não achas graças nenhuma a que o teu pai pareça gostar mais dos teus brinquedos do que ti ... E estás ainda mais certo! Terceiro: no caso de achares complicado dizer-lhe isso, vai brincar para o escritório do teu pai, que ele assim aprende mais depressa ...
  • Os adultos, às vezes, também fazem grandes disparates.
    • Às vezes, porque são mais experientes, também evitam muitos ... Mas, quando os fazem, capricham, Frederico ...
  • Eu acho que é preciso sermos muito compreensivos com os adultos.
    • Mais ainda? Então não basta toda a paciência que as crianças já têm, quando fazem de conta que são tontas só para não os desiludirem? ...

OS NERVOS EM FRANJA (Quando os crescidos melgam e atrofiam ... porque sim)

  • As minhas maiores reclamações são:
    • Que o meu irmão mais velho seja pateta
    • Que a minha mãe me dê comida que eu não gosto
    • Que o meu pai chegue tarde a casa
    • Que a minha mãe faça sempre a mesma receita
    • E a coisa que menos gosto é que a minha mãe vista roupa tão feia
      • E já agora, Henrique, se eles fizessem tudo aquilo que eu quisesse é que gostavam de mim como devia ser! Não és meigo a pedir! ... Mas já imaginaste começar por dizer aos teus pais que, bens feitas as contas, só queres mesmo mais mimo?
  • Não gosto que a minha mãe me penteie. Eu tenho seis anos!!...
    • Mas as mães - porque gostam muito (mas muito!) das filhas - acham que, quando elas têm seis anos, são (no mínimo!) umas bebés! Não há volta a dar, Joana. Há mães que não têm remédio! ...
  • Eu não gosto que o meu pai me esteja sempre a dizer que sou pequenina. Parece que quer dize que eu não sei fazer as coisas.
    • Pois ... Eu acho que ele quer mesmo dizer isso, Carlota ... Mas vê pelo lado bom: no fundo, o que ele queria mesmo é que fosses a pequenina dele ... para sempre. Porque assim não saías do colo dele, não fazias nada sem lhe pedir ajuda, e ele - assim - em vez de se sentir só o teu pai, sempre se achava um paizão "à maneira"!...
  • Eu não gosto de não saber ler e a minha professora ralha-me.
    • Mas sempre que ela te ralha, tu, lá no fundo, desconfias que ela tem um "fraquinho" por ti ... Agora imagina o que seria se aprendesses a ler!...
  • Os adultos deviam pedir desculpa.
    • Deviam!... Pedir desculpa é dizer mais ou menos assim "Como já deste conta, Adriana, não sou perfeito". Quando me dá para fazer asneiras, não me falta nada ..." E eu até imagino a responder: "Vá lá, também não é preciso que exageres ... A Adriana desculpa ... Para a próxima fazes melhor ..."
  • Não acho justo vir todos os dias para a escola ... porque eu queria ficar em casa com o pai e com a mãe.
    • E não devias ficar, ao menos, de vez em quando?... Mas - já agora - porque é que não os levas contigo, num destes dias, para brincarem, na escola, contigo e com os teus amigos?
  • Eu gostava de estar mais tempo com a minha mãe. Eu estou na escola, depois no A.T.L., e depois vou para casa e espero que chegue. Depois jantamos, mas vou logo para a cama. E é sempre assim ...
    • As crianças deviam estar tanto tempo fora de casa, a trabalhar, como aquele em que estão em casa, a descansar e a brincar. Até porque mais um bocadinho de vitamina-mãe nunca é de deitar fora. Para começarl, João, devia ser proibido ir para a cama logo a seguir ao jantar ...
  • Não gosto que a minha mãe fique triste quando eu, às vezes, me porto mal.
    • E tens razão, Catarina. As mães estão autorizadas a fazer birras, a gritar e a fazer figuras tristes. Mas estão proibidas de ficar amuadas, porque - como tu sabes - isso faz com que uma criança se sinta culpada sem nunca perceber porquê. E estão proibidas de ficar tristes. Porque uma criança se sente a pior pessoa do mundo ... só porque fez uma birra ou se porta mal.
  • Também não gosto quando a minha mãe me manda para a cama, porque tenho medo que ela fuja.
    • Oh Carolina, E quem é que tu imaginas que te guarda os sonhos: o anjo da guarda? Não lhe contes isto, porque senão ela fica vaidosa ... Mas - se fechares os olhos - vais descobrir que as mães não dormem quando os filhos vão para a cama: ficam (dentro das crianças) a olhar por elas.
  • O pai, às vezes, diz que não gosta de mim quando se zanga comigo. É um bocadinho verdade.
    • E queres tu ver que gostas sempre do teu pai, quando eles se zanga contigo!... E depois, meu caro José, quando o teu pai diz que não gosta de ti quando se zanga, está a dizer assim: "Gosto tanto, tanto de ti que guardo o melhor das minhas birras para o meu filho preferido".
  • Não gosto quando a minha mãe me ralha. Mas gosto muito quando brincamos os quatro no sofá.
    • E - aposto - ela não gosta dela quando te ralha. Mas, às vezes, as tarefas de uma mãe são muito ingratas!

GRANDES & TERRÍVEIS (A maldade, o egoísmo e as vaidades dos crescidos)

  • Fico triste quando a minha mãe me dá uma tareia. Ela está sempre a dizer que eu me porto mal. Mas eu não acho.
    • As tareias são uma coisa muito feia que os pais não têm o direito de fazer. Ao pé de uma tareia, seja lá por que fôr, tu nunca te portas tão mal como a tua mãe, Clara.
  • Também não gosto quando o meu pai bate ao meu mano, porque ele só tem dois anos.
    • Compreendo que não gostes, Susana. Mas é bom que, pelo menos, possas contar à tua professora essas coisas feias que o teu pai, de vez em quando, também é capaz de fazer. Talvez ela lhe possa explicar que as crianças não se educam com açoites.
  • Eu disse que tinha medo do escuro e a minha mãe disse para eu meter a cabeça debaixo dos lençóis. Mas lá também estava escuro e eu tinha medo. E eu chorei, e a minha mãe bateu-me com uma colher de pau.
    • Sabes, Rafael, às vezes - quando os pais estão muito assustados com tudo o que se passa à volta deles - fica tudo um bocadinho escuro. Não é que eles reconheçam os medos das crianças. Não compreendem é os deles.
  • Não gosto que me dêem pontapés. Não gosto que o meu pai e a minha mãe me batam, porque dói. Eles podiam antes sentar-me de castigo, no sofá, a ver televisão.
    • Pois podiam, Armando. E podiam ainda perceber que um pontapé faz nódoas negras dentro de uma criança, que nunca mais desaparecem.
  • Não gosto que o meu pai se chateie comigo. A minha mãe diz que ele fica muito feio quando se chateia comigo...
    • A tua mãe é muito esperta, Inês! E - não queres saber?... - ela é mesmo capaz de estar certa!...
  • Não gosto que o pai feche a porta à chave quando estou de castigo.
    • Que ideia mais tola a do teu pai, Gonçalo! A casa de uma criança é o melhor do mundo para ela. Como podem ficar presas, e de castigo dentro dela?
  • Nao gosto quando me batem com força.
    • Gostar, gostam as crianças de colo e de meiguices. Fazes muito bem em não gostar!
  • Eu quando for grande, não quero ser como os adultos.
    •  Fazes muito bem, Hugo. Estás obrigado a ser melhor!
  • Os adultos dizem para nós não gritarmos mas, depois, são eles que gritam. Às vezes, a minha mãe diz: "João, não grites que me dói a cabeça!" e depois chama-me "JOOÃÃÃÃÃÃOO".
    • Ah, João! Anda uma mãe a educar uma criança para isto!....

extraído do livro "Reclamações das crianças" de Eduardo Sá.


      

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